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terça-feira, 27 de setembro de 2011

A espiritualidade na visão da ciência

Por Leandro Louzada

A discussão e o interesse existencial em torno das questões de espiritualidade ligada à saúde, a um viver saudável e feliz, tendo como parceiro o conhecimento científico, estão na ordem do dia. Não importa se esta espiritualidade não tem nenhuma referência ao mundo transcendente.
Tendo em vista as sinalizações da atualidade, a temática espiritualidade vendo sendo alvo de interesse junto a diversos segmentos da sociedade; desperta um verdadeiro glamour,especialmente as espiritualidades de cunho oriental: dentre outras, o budismo, nas suas variantes, e o hinduísmo. Constata-se que o cristianismo institucionalizado do ocidente perdeu significativamente o interesse para muita gente.
Prestemos atenção ou não, a Natureza, sem ser convidada, se impõe a nós, por meio de sua força assombrosa de um furacão ou de um terremoto, curiosamente denominados por advogados ateus como “atos de Deus”. O lugar para procurar a espiritualidade é aqui
mesmo, em nossas vidas e em nosso mundo, não alhures. Há também espiritualidade em nosso senso de humanidade e camaradagem, em nosso senso de família e ela pode ser encontrada nas melhores amizades.
Espiritual não implica qualquer crença num ser supremo, ou numa vida depois desta.Espiritual, então, não significa religioso e os que se denominam ateus também têm preocupações espirituais como qualquer outra pessoa.
Um novo campo do conhecimento, denominado neuroteologia, os cientistas buscam as bases biológicas da espiritualidade. Então a idéia de Deus estaria em nossas cabeças como uma criação de nosso cérebro? Mistério dificilmente decifrável no âmbito do circuito racional humano. Seria difícil imaginar um crente em meio a uma experiência mística, dizendo para si próprio que tudo não passa de uma atividade de seus circuitos neuronais. A ciência não lida com o imaterial (embora alguns aspectos da física moderna se aproximem). O mais longe que os neurobiogistas poderão ir será fazer uma correlação entre determinadas experiências com certas atividades cerebrais. Sugerir que o cérebro é a única fonte de nossas experiências seria reducionismo, ignorando a influência de outros fatores importantes, tais como a vontade, ambiente externo, sem esquecer a graça divina.
Para muita gente, ainda hoje, ciência e religião estão em guerra. A função da ciência não é tirar Deus das pessoas. É oferecer uma descrição do mundo natural cada vez mais completa, baseada em experimentos e observações que podem ser repetidos ou ao menos constatados por vários grupos. Com isso, a ciência contribui para aliviar o sofrimento humano, seja ele material ou de caráter metafísico. Sempre haverá a questão de quem fez as moléculas, e por que existe algo em vez de não existir nada. São questões que não podem ser solucionadas pela ciência. Você pode sempre colocar Deus no estágio da criação.
Numa rota reflexiva bem diferente dos cientistas supracitados, temos também aqueles que não vêem contradição entre a prática de uma fé com sua atividade de cientista. Em outras palavras, pode-se ser um bom cientista e ao mesmo tempo acreditar em Deus.
Outra questão que ganha visibilidade é a relação entre religião e saúde. Busca-se provas científicas de que a religião, a fé e espiritualidade, fazem bem e geram bem estar. Pergunta-se, qual é a relação entre a fé e a cura? O debate cresce, envolve cientistas, crentes e não crentes, nos EUA inúmeras faculdades de medicina alteram o currículo de formação de seus futuros profissionais para estudar a questão e ensinar os estudantes em como lidar com os pacientes em relação à esta questão, (doença/saúde/fé/cura), além disso, aumentou muito o número de pacientes que solicitam orações a seus médicos.
Estudos mostram que em torno de 50 a 70% de problemas de cuidados primários em saúde tem o estresse como o maior fator desencadeador. Medicação para pressão sanguínea e anti-inflamatórios, bem como anti-depressivos, são simplesmente paliativos para problemas interiores. Esta pesquisadora no entanto descobriu algo que a deixou estupefata. As pessoas que freqüentam Igreja têm 25% de redução em mortalidade, isto significa que elas vivem mais em relação às pessoas que não freqüentam.
Albert Einstein, que escreveu: “A ciência sem religião é incompleta, a religião sem ciência é cega”. Einstein tornou-se um crente no Deus criador impessoal: “Eu credito no deus de Spinoza, que se revelou na pacífica harmonia de que o que existe não é um Deus que se preocupa com fatos e ações dos seres humanos”. Como um dos maiores cientistas de todos os tempos, Einstein encontrou um caminho de acreditar em ambos, Deus e Ciência. Enfim, a discussão sobre a relação entre fé/espiritualidade/doença/cura/saúde não vai cessar tão cedo, acreditamos que apenas esteja se iniciando. A busca de entendimento científico prossegue, desde os laboratórios digitais sofisticados da neurobiologia que buscam “explorar Deus”, até o leito de muitos doentes crônicos que clamam por saúde e cura, invocando Deus sem exigir provas.
Certamente o conhecimento da racionalidade científica é importante,assim como outros tipos de conhecimento, tais como a música, a literatura, a cultura e as religiões. Querer captar todo o mistério de Deus nas malhas da razão não deixa de ser um ato de orgulho. Para finalizar e deixar como uma provocação, retomamos o que diz Píer Luigi Luisi, bioquímico italiano: “O dilema sobre Deus não pode ser solucionado com lógica. Ou você tem fé ou você não tem”.
A fé e a razão precisam caminhar juntas, os conhecimentos científicos são fontes criadas por Deus para a evolução do homem no espaço que vive. Criação de medicamentos para a cura de doenças que jamais poderíamos acreditar que haveria cura, são processos científicos, mas visivelmente iluminados pelo criador.
A oração é um forte aliado na recuperação do individuo que acredita no poder de um ser superior que pode fazer um milagre, oferecer a cura instantaneamente ou usar o tratamento medico como fonte de cura divina.
Duas coisas podemos afirmar, a ciência não pode caminhar sem a fé e a fé não pode caminhar sem a ciência.

Resenha do artigo "A espiritualidade interpretada pelas ciências e pela saúde" escrito por Leo Pessini.

domingo, 24 de agosto de 2008

Uma Nova Igreja Para Uma Nova Realidade - Considerações Sobre o Desfoque da Eclesiologia Contemporânea

Por Wanderley Rosa
Das várias criativas idéias de Deus, uma das que mais me impressiona é a da Sua presença em meio à humanidade através da vida daqueles que se chamam cristãos. Paulo mandou bem ao comparar estas pessoas com um corpo humano que, como tal, está em constante movimento – interno e externo – é um organismo vivo, dinâmico, que se atualiza, que se renova. De fato, este mesmo corpo também envelhece e morre, mas misticamente, de novo tornará a nascer e se renovar. Nele não há nada de estático, nada hermético, nada atrofiado...A turma lá do início entendeu bem isto. Mesmo em meio as ferozes perseguições, primeiro dos judeus depois dos romanos, o pessoal se organizou e enfrentou a situação. Houve mobilização, estratégia e percepção histórica incrivelmente lúcida. É verdade também que, com o passar do tempo, algumas alianças que esta igreja fez roubou seus melhores momentos – como no caso da boa parte que embarcou alegremente no trem do Constantino.Enquanto houve inserção cultural (qualquer cultura) desprovida de preconceitos aliada a uma dissidência caracterizada por repúdio ao poder e ao status quo (religioso ou político) aí encontramos uma comunidade (ou indivíduos) alegre, relevante, sadia e impactante. Assim foi no caso de Jesus que se recusou a ceder aos apelos belicistas e ufanistas de seus discípulos e preferiu pagar o preço de percorrer um caminho de fraqueza que possibilita um outro tipo de poder. Jesus foi um fracasso do ponto de vista humano. Além disso, sua inserção cultural era tão intensa que quando ele quis se esconder daqueles que o perseguiam, bastou se misturar à multidão. Ele era tão igual que Judas precisou beijá-lo para identificá-lo para os guardas que foram prendê-lo. É isso: Jesus era um igual. Manjava da moda. Conhecia a agenda dos seus dias. Sabia sobre os eventos. Estava por dentro das notícias.Eu sei que quanto mais passa a nossa vida, mais difícil fica para nos abrirmos e apreendermos novas idéias. É por isso que as crianças aprendem tão rápido. Elas absorvem as idéias e os fatos com a mente totalmente aberta, sem resistências. Mas com o tempo viramos “burro velho”...Fico cheio de esperança com a moçada. Fico imaginando que amanhã os líderes e fazedores de opinião de nossas igrejas serão a moçada que está aí hoje já dando sua contribuição. Mas há um desconforto dentro de mim. Há tempos perdi minhas ilusões. Esperança sim, ilusão não. Temo duas coisas: primeiro que a moçada de hoje, rebelde, revolucionária, independente, contestadora, cheia de ideais, vire “burro velho” e empaque em conceitos e posturas fundamentalistas e ultrapassadas. Meu segundo temor é que eu esteja errado nisto também. Que esta moçada não seja tão rebelde, revolucionária, independente, contestadora e cheia de ideais assim. Aí, o problema é que não se vão apenas as ilusões, vão se embora também as esperanças...Temo que quase ninguém em nossas igrejas conheça o belíssimo som feito pela banda Casaca, garotos prodígios do nosso Estado. Fui no show de lançamento do CD deles no Álvares. Foi emocionante. Deus estava ali também e não apenas nos shows evangélicos...Temo que a maioria da turma não tenha ido ver “Cidade de Deus” por ouvir falar que tem muito palavrão. Fui duas vezes. Na segunda levei minha mãe. Ultimamente, tenho visto poucos filmes tão humanos quanto este. Temo que o pessoal nem saiba do que se trata “Cidade de Deus”. Aliás, olha aí Deus outra vez...Temo que boa parte da juventude só ouça CD evangélico (ouça o som do Casaca, ou do Cramberries, ou Red Hot), só leia livro evangélico (leia Hiroshima relançado recentemente pela Companhia das Letras), só saia com evangélico (experimente sair de vez em quando com a turma do trabalho também)...Temo que nossa inserção esteja desfocada. Em nome de uma suposta espiritualidade, somos brega demais nas nossas roupas, nas nossas músicas, nos lugares que freqüentamos, no nosso jeito de ser. Nossas defesas mais apaixonadas, na maioria das vezes, são totalmente despropositadas, como por exemplo discutir a influência satânica do Harry Potter sobre nossas crianças. Até minha filha de 9 anos riu de tamanha bobagem.E para defender estas coisas que estão aí acima, cintam-se textos e mais textos fazendo uma hermenêutica paupérrima que não tem nenhum compromisso com a verdade do texto. Mas acredita-se que se está defendendo as “causas cristãs”.Se não conseguimos acertar o foco em coisas tão pequenas, o que dizer acerca de nossa visão das questões políticas, sociais e mundiais dos nossos dias. Apenas para exemplificar, vi a defesa apaixonada, por parte de muitos do candidato Garotinho para a Presidência só porque ele é evangélico. Vai se dizer que não é só porque ele é evangélico, mas sabemos que é por causa disso sim. Vai se dizer que a esposa dele ganhou no Rio e isto é prova suficiente do grande trabalho que ele fez lá. Mas isto não prova nada. Até o Jader Barbalho foi eleito... Não digo que o Garotinho não seria um bom Presidente. Até porque nem conheço bem o trabalho que ele fez no Rio. Só sei que não posso votar em alguém crendo que ele será um bom líder para a nação só porque supostamente todas as manhãs ele irá orar buscando o Senhor. Primeiro por que eu não sei se ele ora todas as manhãs e, segundo, porque mesmo que ore, a oração não fará necessariamente dele um grande Presidente. Certamente poderá torná-lo um bom cristão. Ser evangélico não pode ser critério, pois, se fosse, este ser disforme e equivocado que comanda o bando que ocupa a Casa Branca atualmente (ele é metodista – resgatado do poder do alcoolismo) não seria o grande Homem-Bomba do Bin Laden. O seu pai (episcopal) não teria liderado o massacre de 130 mil civis iraquianos na guerra do golfo. O protestante Nixon não teria matado 100 mil cambojanos através dos bombardeios que ordenou. E por aí vai. Mas, como disse um amigo meu, não sem antes lerem a Bíblia e orarem na abertura de cada reunião de cúpula.Invertemos as coisas, Jesus não quis o poder, mas se inseriu na cultura. Nós não queremos a inserção na cultura, mas queremos o poder.Mas quem sabe. Quem sabe não seja preciso perder com as ilusões também as esperanças. Quem sabe veremos o dia em que a igreja vai perder o medo de se misturar com receio de perder o seu sabor. Não é para sermos sal ? Quem sabe um dia esta igreja vai perceber marcas de Deus também naqueles que não estão caminhando com o “nosso” grupo. Quem sabe um dia levaremos a sério a famosa frase dos reformadores “igreja reformada, sempre buscando reforma”. Quem sabe um dia vamos parar de fingir, de brincar de seres espirituais, quase desencarnados, de brincar de anjos, quase alados, e vamos nos tornar uma igreja verdadeiramente humana. Uma igreja que paga o preço de ser humana e se assume assim, com todos os seus defeitos e contradições. Aliás, me parece que este é um dos propósitos da encarnação de Jesus, não nos tornar seres espirituais, mas tornar-nos mais humanos...
Wanderley Pereira da Rosa é formado em Teologia, Filosofia e aperfeiçoamento em Psicanálise e é diretor da Faculdade Teológica Unida.